
IRENE DA PAZ, UM ANJO QUERUBIM
Tinha os pés descalços e um sorriso onde faltava dentes, mas o que faltava de dentes sobrava de amor. Assim, de cara. Entrou na igreja e ficou observando as pessoas. Fiquei observando-a de fora. Um impulso me levou até seu banco e lá fiquei, travado. Pensei que havia sido teletransportado, mas não, foi apenas rápido demais. Fique observando sua imobilidade e ela, parecendo me notar, também, dentro da minha lógica, me observava e sorria. Quando avistou a máquina fotográfica em meu pescoço disse: “Essa é profissional, né?”, Feliz com o contato respondi que sim. Ela me pediu para tirar uma “foto bem bonita de cinema”. Achei graça e me posicionei junto a ela. Tiramos a foto e perguntei seu nome “Irene, um anjo querubim! Sou a paz na terra, sabe? Ninguém acredita, mas sou sim!”. Respondi imediatamente: “Eu acredito!”. Ela sorriu e continuou: “Acredita? Que bom, filho!” me abraçou novamente. Fechei os olhos por um instante na tentativa falha de eternizar aqueles segundos de felicidade em algo menos efêmero e mais palpável, em vão. Ao abrir vi que ela não estava mais lá. Perguntei a três ou quatro pessoas que passaram se haviam visto a senhora que estava me abraçando. Me olharam desconfiados, todos, disseram que não havia ninguém ali desde que eu cheguei. Uma até perguntou se eu estava bem ou se tinha bebido alguma coisa. Mas eu tinha certeza do que vi e mais ainda do que senti. Fui ao banheiro na esperança de encontrá-la e nada. Fui até a cozinha, passei pela sacada, nada, nada e mais nada... Muito frustrado saí da igreja. Voltando para a praça pensei em tomar um café e tentar anotar algo sobre esse encontro. Sentei e levei a xícara até a boca. Senti um prazer enorme no primeiro gole. “Gostoso, né? Eu sempre tomo café aqui, filho!”, disse ela. Fiquei surpreso e feliz! Convidei a se sentar comigo, ao que, educadamente, me respondeu: “Não posso, filho. Ninguém acredita em mim ainda”. Tive vontade de insistir, porém achei que seria invasivo demais. Aceitei sua resposta e fiquei admirando aquele “anjo querubim” que se dirigia até o muro da praça. Lá chegando sentou no chão e estendeu a mão como quem pede esmola. Todos, absolutamente todos, que passavam não olhavam em seus olhos. Abaixavam as suas cabeças e não a enxergavam, a ignoravam, negando a ela sua própria existência.