
CIVILIZAÇÕES DISTANTES/PRÓXIMAS
Não foi o rosto que vi e sim a capa de um livro. De tal modo encobria o rosto que parecia o própria livro sua face. Ao abaixar o mesmo para virar a página revelou-se. Um olhar forte, leve e cansado. Cansado de ter que lutar pelas mesmas coisas todos os dias, leve porque entendia o valor das coisas de todo o dia (o valor que não se resume ao monetário, o valor incalculável, sabe?). Seu livro, ou sua face, tinham o dourado das coisas que o tempo ensinou a ser firme, como um galho resistente de uma velha árvore que resiste em tempos secos na caatinga, como um fruto, último em seu leito, que se segura com todas as forças para não ceder seus esforços para a gravidade. Os dedos não paravam, nem um segundo, ficavam dançando ente si uma coreografia de improviso total. Naquele instante os dedos dançavam, assim como a vida, ao que acontecia. Dançavam com o que acontecia, dançavam o que acontecia. Tinham toda a vibração da própria vida em seus micromovimentos. Ao seu lado uma grande mochila cheia de coisas! Dava para ver sapatos, cordões, bastões de médio tamanho, pedaços de roupas que pareciam figurinos, potes com frutas e comidas naturais, parecia, garrafa de água e mais livros. Fiquei intrigado. A capa do livro que lia era um desenho aparentemente feito por ela mesma, pensei. Logo, talvez, o livro seja dela. Mas quem é capaz de ler a si mesmo com tanta facilidade? Eu pensava. Dúvida que não chegou a ser solucionada até hoje. Talvez, só talvez, ler a si mesmo seja o própria caminho da dúvida e a vida não seja suficiente para responder. Buscar a resposta é, talvez, a razão de toda a existência sabendo que haverão coisas que nunca serão respondidas. Olhando sua figura pensei nas formigas, quão pequenas são e quão somos nós pequenos diante de todos os mistérios dos universos. E não só nós, todos os que não conhecemos e assim infinitamente nessa sucessão de “formigas” de um para os outros. Somos pó de estrelas!... Mas porquê a figura dessa moça me fazia pensar em tantas coisas tão fantásticas!? Automaticamente quando pensei nisso ela me olhou. Fechou o livro devagar, com o olhar fixo. Retirou do bolso uma caneta. Rasgou uma página do livro e escreveu algo. Pensei: “Como ela pode rasgar algo tão importante para ela?”. Fui em sua direção e ela me entregou o papel. Quando li estava escrito: “É só matéria. Efêmera como a vida”. Fiquei paralisado. Ela sorriu, segurou uma de minhas mãos como quem afaga e se desfez. Aos poucos. Enquanto o vento batia em sua pele, seu ser voava pelo vento como areia ao ar. A última parte a se desfazer foi sua mão que segurava a minha. Via o resto de areia cair ao chão. Ficou perplexo. Fui para casa e lá chegando, ainda pensando no ocorrido, fui lavar as mãos no banheiro e vi que havia algo escrito: “Re-Evolução” era a palavra. Desse jeito. E mais nada. Uma sensação de paz invadiu meu ser como torrente. Liguei a TV e estava passando uma reportagem em comemoração ao dia da dança. Nessa reportagem o rapaz dava informações aos telespectadores sobre uma deusa antiga, pouco conhecida, revolucionária em sua época, que comemorava seus feitos com uma dança estranha a qual nomeavam “contemporânea” (mesmo sem poder datá-la). O nome dessa deusa era Flamínia. Quando mostraram a imagem da estátua era a mesma moça que eu havia visto. Mas em suas mãos em vez de um livro tinha um coração e nele estava gravado: “Re-Evolução”.