ANA SURPRESA!
Estava me olhando na praça. Um olhar de estranhamento. Me aproximei e perguntei se poderia ajudar com algo e logo me respondeu sorrindo “Acho que conheço você de algum lugar”. Fiquei olhando para o seu rosto durante um momento e partilhando do mesmo pensamento. Quando ela saiu num rompante me dizendo para esperar. Fiquei confuso e esperei, por curiosidade, por preguiça, por inação. Quando ela voltou trouxe um chapéu Panamá e uma lousa, me disse: “Ah, foi você!”, e eu: “Eu o quê, moça?”, “Você que reescreveu minha biografia, lembra?” ... Parei no tempo. Há tanto que não reescrevia nenhuma biografia porque estava atarefado editando o livro e novamente aquele sentimento me invadiu. Meu sorriso brotou feito um feijão mágico: “Claro! Como poderia esquecer? E, aí? Já comprou seu carro?”, perguntei lembrando do que havia me dito quando a entrevistei. “Pior que não”, respondeu-me. Entristeci e me senti inútil. Parecia que toda a poesia não valeria de nada perante a realidade, a cruel rotina e a condição social que nós vivemos. Foi um “banho de água fria”, meu sorriso se desfez pelo chão procurando algum bueiro próximo para fugir... Quando ela completou: “Eu comprei a loja em que trabalhava. Estou abrindo uma filial em Floripa. Vamos fazer seu projeto por lá?” e sorriu. Eu, sorri, sem palavras, sem forças e sem lágrimas.
