
Ando devagar porque já tive pressa e levo o meu sorriso,...
Danu, era o nome dela. Não lembro direito como a conheci, lembro apenas que estava numa praça e eu estava fazendo um bico de “homem sanduíche”, esses que ficam com anúncio pendurado no pescoço. Não está fácil pra ninguém! Me contava que era veterinária porque amava tudo que possui vida e que tinha uma viagem, naquele mesmo dia. Perguntei para onde iria, respondeu: “Salvador!”. Nunca vi ninguém responder algo com tanto brilho nos olhos como ela, deveria gostar mesmo dessa cidade, e foi o que perguntei, então ela disse que tinha algo muito importante para fazer lá e novamente seus olhos explodiram em brilho. Mas senti uma certa tristeza misturada com saudade ou algo próximo. Nos despedimos, nos abraçamos e desejei boa viagem. Ela partiu sem olhar para trás. Terminei o “bico” e peguei a condução. Lotada, cheia de pessoas como eu, cansadas esperando chegar ao lar e tomar um banho para repor as energias e relaxar, porque no dia seguinte a roda da vida gira novamente. Já com a cabeça apoiada no braço (porque estava de pé como sempre) e semi-dormindo vi uma pessoa, solitária, andando pela rodovia. Achei poética a visão e tentei observar com mais calma. Era Danu! Porque ela estava andando na rodovia sozinha? Desci na próxima parada e corri para alcançá-la o mais rápido que pude e perguntei pra onde estava indo (com medo da resposta), me respondeu de pronto: “Ué? Pra Salvador! Tá ruim da memória, hein?”. “Mas você vai a pé???”, indaguei... Ela suspirou, me olhou com muita calma e respondeu: “Não importa como você vai, se você tem um sonho, vá”. Meus olhos marejaram na “mesmorinha”, como diria Guimarães, e perguntei sobre o que tinha de tão importante para ela fazer lá. Ela me disse que tinha um filho que não vê desde os 3 meses e eu, tentando fazê-la desistir da ideia, falei que era muito longe para ir caminhando e que seria muito demorado, etc. “Se ele me esperou por 20 anos, vai me esperar mais 2000 quilômetros! ”, e saiu. Com aperto no peito a vi se fundindo com o horizonte e a única coisa que pude fazer foi desejar, em pensamento, boa viagem.