Dois ou dez!
Uma pessoa no meio de tantas, comum, sem nada de diferente, a não ser a enorme admiração por movimento. Olhava para as outras pessoas na praça como quem analisa a direção do vento, a velocidade, essas coisas. Era um olhar técnico, preciso, não só um olhar vago. O percebi de longe e fiquei observando um tempo. Suas pernas não paravam, mexia pra lá, mexia pra cá, quase um bailarino alucinado, “parado”, no banco da praça. Pensei em me aproximar, mas não queria interromper sua preciosa observação. Cheguei com um “Bom dia!” e fui recebido com uma agilidade incrível e um sorriso aconchegante como se me conhecesse há anos! Começamos um papo, devagar, descontraído, Raí era bem divertido, sempre alegre. Me contou que havia acabado de sair do cartório para regularizar os documentos da sua tão sonhada casa própria, estava muito feliz. Quando de repente, veio em nossa direção uma bola, desavisada, ele simplesmente matou no peito, deixou cair sobre o joelho e a dominou colocando o pé esquerdo sobre ela com muita intimidade. Pensei em perguntar o óbvio, mas logo me interrompeu: “Fala nada! Por favor? Eu sou jogador profissional, mas não quero que ninguém saiba. Eu moro na Europa, tô aqui de férias. Lá ninguém me deixa em paz! Por favor não conta pra ninguém.” Já foi tirando o tênis, porque todos estavam descalços, tirando a meia, como se fosse um ritual muito importante! (para ele era, quem sou eu para falar o que é ou não importante?). O pedido foi tão sincero que selei nosso segredo enquanto o ouvia perguntar se tinha vaga pra mais um e a molecada da praça responder: “Dois ou dez, marca aí”...
